sábado

Saint-John Perse: ELOGIOS

I

As carnes assam ao vento, os molhos se compõem
e o fumo remonta os caminhos ao vivo e alcança quem andava.
Então o sonhador de bochechas encardidas
se desprende
de um velho estriado de violências, de astúcias e esplendores,
e ornado de suores, para o cheiro da carne
desce
qual mulher que arrasta: seus panos, toda sua roupa e seus cabelos desfeitos.


XII

Temos um clero, temos cal.
Vejo brilharem os fogos de um acampamento de soldadores.
- Os mortos do cataclisma, como animais espulgados, nessas caixas de zinco levadas pelos Notáveis e que voltam da Prefeitura pela rua principal encharcada de água verde (ó estandartes lavrados como dorsos de lagartas, e uma infância em negos suspensa de borlas de ouro!)
são empilhados, por um momento, na praça coberta do Mercado:
onde de pé
e vivo
e vestido como velho saco rescendente a arroz,
um negro cujo pêlo é da lã de carneiro negro cresce como um profeta que vai gritar numa concha - enquanto o céu pedrento anuncia para esta noite
novo tremor de terra.


XV

Infância, meu amor, amei também bastante a noite: é hora de sair.
Nossas amas entraram nas corolas das roupas... e colados às persianas, sob nossas tranças geladas, vimos
como lisas, como nuas, elas levantavam no alto do braço o anel mole da saia.
Nossas mães vão descer, perfumadas com a erva-de-Madame-Lalie... São belos seus pescoços. Vai adiante e proclama - Minha mãe é a mais bela! - E eis que ouço
os panos engomados
que arrastam pelos quartos um doce ruído de trovão... E a Casa? a Casa?... saímos dela!
O velhote mesmo me invejaria um par de matracas
e o zunir com as mãos como um cipó de guizos, o bonduque ou a mucuna.
Aqueles que são velhos na terra puxam uma cadeira para o pátio, bebem ponches cor de pus.


XVI

Aqueles que são velhos na terra levantam-se mais cedo
para abrir o postigo e olhar o céu, o mar que muda de cor
e as ilhas, dizendo: o dia será belo, a se julgar por essa madrugada.

E logo é dia! e o zinco dos tetos se ilumina no transe, e a baía está entregue ao mal-estar, e o céu ao humor, e o Contista se lança à vigília.

O mar, entre as ilhas, é rosa de luxúria; seu prazer é matéria de debate, tivemo-lo por um lote de braceletes de cobre!

Crianças correm às margens! cavalos correm às margens! um milhão de crianças levando suas pestanas como umbelas... e o nadador

tem uma perna em água morna mas a outra pesa numa corrente fresca; e as gonfrenas, os ramis,
a acalifa de flores verdes e essas pílias tufadas que são a barba dos velhos muros
enlouquecem nos telhados, à beira das calhas,

pois um vento, o mais fresco do ano, se levanta nas bacias de ilhas que azulam,
e soltando-se até esses banquinhos rasos, nossas casas, desliza para o seio do velhote
pela abra de pano até o lugar cheio de crina entre os dois mamilos.

E o dia começou, o mundo não é tão velho que subitamente não ria...

***

É então que o cheiro de café vem pela escada.


XVII

"Quando acabares de me pentear, acabarei de te odiar."
A criança quer que a penteiem na soleira da porta.
"Não puxes assim o meu cabelo. Já basta que seja preciso tocarem em mim. Quando me houveres penteado, eu te terei odiado."
Enquanto isso a sabedoria do dia toma a forma de uma bela árvore
e a árvore balançada
que perde uma porção de pássaros,
nas lagunas do céu escama um verde tão belo que nada existe mais verde do que o percevejo de água.
"Não puxes tão longe meus cabelos..."


XVIII

Agora deixai-me, vou sozinho.
Sairei, pois tenho o que fazer: um inseto me espera para tratar. Alegro-me
com o grande olho facetado: anguloso, imprevisto, qual o fruto do cipreste.
Ou tenho uma aliança com as pedras azul-estriadas: assim, deixai-me, também,
sentado na amizade de meus joelhos.

2 Comments:

Anonymous l. rafael nolli said...

Concordo contigo acerca do justissimo Nobel!

3/3/06 22:56  
Blogger Pablo Araujo said...

perse é incontornável.

valeu por essa! não conhecia ainda os 'elogios', somente 'anábase' e alguns trechos de 'amers'.

abração

4/3/06 16:27  

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