sábado

Rodrigo Petronio: Assinatura do Sol


para Dirceu Villa

  

Todos os rostos são o Seu, por isso Ele não tem rosto.

Edmund Jabès

 

 

I

 

Sou um braço de sangue que se eleva e canta para fecundar os vivos com o cobre.

Um círculo de pão e fome. Um veio de cristal. Veia de silêncio líquido.

Voz de pólen. O que a lucidez da terra expele e o que a inteligência não sorve.

Prescindo de abrigo. Moro no sol, em sua pele, em seus poros e acordes. 

Um tronco de estrelas. Contas fixas no eixo azul do orbe.

Tudo o que existe nasce da delicadeza de um deus que morre.

 

II

 

Filho de Cam, do universo origem e suporte.

Trago a flor invisível. Os pequenos palácios de folha.

A nomenclatura simples da noite em oferenda a Oxossi.

Ao sul do mundo e do tórax um país de magma me espera.

Tão mais perto de deus quanto mais longe da alma.

Lavo-me nesse poço de pedra. Fito o vazio da luz que a luz em si prepara.

As plantas têm a tranqüilidade das ondas.

Porque a água e as pedras são a pele de um deus qualquer que sonha.

Não inauguro o cenário das casas. Não povôo este campo de sulcos, raízes e vértebras.

No espelho de terra lavro a minha cara.

Para que a estação me recolha quando tudo tarda.

E eu só rebente na primavera.

 

 

III

 

O olhar não recorta o horizonte. Não capta suas cicatrizes.

É a boca porosa que sorve a sombra das aves em seu eclipse.

O mundo ainda está para ser criado. O incêndio inicial do barro.

A constelação dos dentes. O colar de pétalas. A corola da face desde sempre existe.

Desde sempre aberta. As pegadas são frases de uma estória a ser reinventada.

A modelagem das formas. A mão incandescente que modela a praia.

O risco dos dedos de argila no metal. O golfo de ervas, o mar, a noite suspensa.

A navalha do ourives recorta a silhueta dos homens. Mesmo sua sombra tem carne. É espessa.

Enquanto o mundo cresce nas veias verdes de Ogum. Livre e leve singra.

A luz frisa com carimbos de ar o meu rosto. Esculpe-me a sua linfa.

Tatuagem que os peixes grafam na pedra ao circular pela água do globo e seu enigma.

 

IV

 

Nesse reino de sede já fui pedra e planta. Gazela, cravo, noz-moscada, doce espargir de néctar.

Já fui corrente aberta de nuvens e a nudez de uma árvore ressurrecta. A morte de um plátano. 

O diamante verde que sobe pelo interior do caule, pulso da terra, a abelha e sua arquitetura convexa.

Um barco de frutas, um astro vegetal, o sangue branco da selva. O peso do ar que verga os ombros.

Antiqüíssimo sono de raízes, ave que migra sob a água, modulação de ombros, céu vermelho da pálpebra.

Vaso sem sombra, o ouro de um tempo que corre e que passa. Sem data.

Fui o vento que enfuna o cabelo das grávidas, os finos fios, a musculatura de algas e estátuas.

Antes de despertar para o mundo das formas que podem ser vistas.

Antes de descender ao campo como um sol que hesita tocar o solo e a inocência de um abismo.

Nesse reino de fome. Já fui prata, espada, crisântemo, papoula. Nó vegetal e halo de silêncio.

Haste que balança contra o vento e trama na terra o ventre claro de um sorriso.

Nessa terra de sede. Dos próprios deuses eu fui a seiva, a matéria, a lâmpada, o princípio. 

 

V

 

Só a lua conhece o interior do hibisco. Seu turbilhão molhado, seu acrílico.

Se o cesto de vime se equilibra é porque o corpo é flexível. É um eixo transparente.

Uma árvore tranqüila em torno da qual gravito.

Um arco que se curva para cuspir o cristal de sua seta sem alvo e sem início.

A vida que em si mesma se basta é plenitude. O resto é tirania.

Um arquipélago de casas se desdobra na aridez da pele. Em seus desvãos e em seus cactos.

A luz de um rosto não ilumina seu contorno ou seu esquadro.

É luz que circula, eclode, irriga, corre, forja o espaço.

Costura todas as coisas com seus dedos diáfanos.

Célula, pele, roupa, cabelo, vara, barco. Luz que brota do corpo.

De seus quartos.

 

 VI

 

Sim, eu poderia dizer que esse riso é uma espada. A noite polvilha o cabelo com pérolas.

Porque todo o céu já foi sorvido pela boca da água. Que esse cigarro é uma estrela apagada.

Boca, buraco negro. O rosto uma rosa, um carvão ceifado do caule de sangue que o queima.

Um vulcão, uma délia azul, uma dádiva.

Eu poderia dizer que a canoa é uma mão de erva que conduz a alma no Hades.

Corda e rio, serpentes de prata.

Mas a carne é apenas a carne. Doce em sua serenidade. Macia quando se leva aos lábios.

A carne é o que mais se aprecia nos jantares ricos. E a poesia se cansou de todas as metáforas.

 

VII

 

É Iansã quem move esse motor de água invisível que sopra com a brisa.

Toca a flauta fina do bambu e a folha dos caniços.

Não a música das esferas, a matemática dos artifícios.

É Iemanjá quem põe o globo a girar e mantém a Terra em órbita.

Não a causa primeira. Primeiro motor e princípio.

É Obatalá quem refaz o sonho branco da noite e destila a misericórdia das flores.

O universo é o tambor de Xangô que toca na pele do espaço suas notas.

Não a cruz pia do sangue e a carne servida em potes. A gravitação universal e seus cortes.

É Exu quem corre veloz levando o vento e o manto da tarde de cobre nas patas aladas.

Quem erra na cortina da chuva, telegrafa um relâmpago azul no nadir, entre o céu e a terra se move.

Não o choque de duas nuvens. Mas o amor de dois deuses. Que fecunda a terra.

Propaga a chuva. Revolve as árvores. Renova o sexo. Ora pela boca das aves. E morre.  

 

VIII

 

Esse assobio se alonga além de si mesmo. Serpente entre rosas. Coze a roupa como se fosse maio.

O trovão escava no campo um ralo para o orvalho. Com suas mãos e tochas.

Sopra por seus fios toda a seda da terra e costura um mantra de riso aberto e olhos fechados.

Assobio que anima o barro. Recompõe o trajeto das claves na pauta dos fios.

Fios de silêncio. Da moringa de água. Da cabeça que arqueia uma sombra no mar recluso em um mapa.

O rosto. Essa lâmpada de combustão lenta. Leva uma vida pra queimar o óleo dos dias.

São fios elétricos. Partituras que começam onde a música termina. Onde termina a alma. 

Asas de um cesto. Boca de sândalo. Vela que evola a cada nova linha da mão que modela o curso do rio.

Foz feliz de luz e água. Mão que costura. Sol que assina. Rosto que tece. Terra que guarda.

Toda beleza nasce de um deus. E é precária.

 

IX

 

Esses seios gêmeos emulam proas. Rododendros, duas esferas, lua negra e sol branco.

Esculpidos em foz. Pela manhã que os côa.

Essas faces gêmeas são uma. Podem vir de dentro da floresta.

Podem ser dois gritos que deságuam em um só delta. Em uma só assinatura. 

A tinta dos pulsos abertos rega a terra em primeira pessoa. É azul como a noite que desperta as folhas.

Dureza de harpa, cabelo e guizo, que a aridez do deserto cava no peito de um deus. Abre nele a fonte do início.

Descortina o mundo no mundo. Não um Além e seus vestíbulos. Doença e morte dos sentidos.

Com o amor de quem semeia seus dentes em um lago de trigo. E espera a colheita das almas ser farta em alfabetos vivos.

Todos têm a minha face. Por isso eu não tenho rosto. Todos são a minha casa. Por isso eu não tenho alma.

Duas faces. Uma só madeira. Quem queima sempre queima além da ilusão do que arde.

A frase de um olho. O desenho de lábios. A testa cortada em puro zinco e cinábrio. A pele que continua no espaço.

Duas faces. Dois seios. Gêmeos na unidade da sombra e da luz que têm por morada.

A tinta com que o seio escreve: azul navalha. O texto que cada língua narra: um só rosto no espelho.

 

X

 

O centro do mundo pode ser um buraco. A periferia onde tudo cabe. Pode ser um arquipélago.

Espalhado por toda parte. O centro do mundo pode ser o avesso de um oásis.

Boca de minério que sorve fantasmas. Álgebra do tempo que escoa ao contrário.

A circunferência de um chapéu, de uma aba, de um astro, de uma cápsula.

O peixe é roxo porque não é peixe. É coral. O planeta é uma concha de lava.

O rosto não é redondo. É oval. Disco de silêncio que mastigo. Um canal.

O charuto que trago entre os dentes. O cilindro de ferro. Onde sorvo a fumaça. Cuspo a alma.

Toda a beleza é transparente. Toda miséria é opaca. A cachoeira de luz lenta me lava.

Estou só com tudo que amo. E cada flor é um poro de um deus que nasce.

A terra, sua placenta. Sua resina áspera. Um animal que rebenta da barriga de uma árvore.

A circunferência está em toda a parte. O centro em parte alguma.

Deus morre para que a manhã se levante. Erga sua toalha e banhe nossos corpos nus.

Para que toda a excentricidade retorne ao destino do mel. A abelha trabalhe.

E do abismo de sua ausência o homem se salve. Flor que estoura um cadáver.

 

XI

 

A trança dos cabelos é um caule aéreo. A trama do tornozelo é um prolongamento das ervas.

O tapete de sílabas é uma folha que se desprende dos lábios.

Taça vegetal, arranjo de assobios, beijo verde, homem improvisado.

Árvore de imagens, guirlanda de fábulas.

Fruto de um tronco emerso das pálpebras. Redemoinho do sangue em sua constelação de algas.

Antes do mundo só houve um sopro. Carbono queimando nas estranhas do mapa.

Pátria de muitas faces acesa onde a brisa toca. Vegetal nômade que no ar cria raízes.

Diamante que prepara em seu abdômen o dorso transparente de um cisne.

Antes do mundo só houve um rastro. Esta pegada que inscrevo agora no barro.

Antes do mundo só houve o acaso. Deus que movimento tudo o que existe.

 

XII

 

A noite poderia me oferecer todas as suas hélices em um beijo.

As folhas abertas em taças ao meio-dia. O olho d'água que é um poço.

O poço que é um lago. O lago que é um dorso onde o mundo segue inacabado.

O caule de metal que sustenta a face ceifada do céu sob o peso do outono.

Estrela cítrica. A terra não é redonda como uma laranja. Mas a lua distribui o pão do sonho.

A terra em uma emulsão feliz cospe o sol como um tubérculo. Menstrua o dia.

Vagina de feltro. Rios de veludo. Um demônio que abraço. Um deus que deponho. Sol convexo.

Tudo que é menos claro é mais certo. Eu poderia seguir por essas faces até cumprir o ritual das sílabas.

Todo deus é mortal. Toda lucidez abandono. Ardo em um galho no centro do mundo.

Estou intacto para a chama e vivo do que em mim mesmo se rebela e não desperta.

Amo o que está aquém das vísceras. Só isso me toca. Só isso perfilo. Só isso destila a carne das almas.

O sono é um terraço habitado por máscaras e ilhas que não chegam a ser arquipélago.

O resto é escória. Projeção de fantasmas. Visto do espaço. O mundo é azul como uma caverna.

 

XIII

 

A dia se ergue e eu não chego a tocar sua crina. Labareda de água que se oferece.

Diapasão do sol que plana pela constelação dos dedos que sustentam a fruta.

Não. Na verdade a terra não é azul como a noite. Nem tem a circunferência de uma laranja escura.

A terra tem o som da flauta vertebrada das ondas que rebentam tranqüilas no porto.

Obatalá sonha esta fonte. Sou os seus dentes cravados no figo. No dorso de um homem.

Sou esta folha que farfalha sem razão. Telegrafa seus nervos e se inscreve em meu ventre.

Sombra da lua e rio de um rio do qual todos os rios são afluentes.

 

XIV

 

O rosto de pedra esculpido pelo sol. Por sua fuligem. Estátua de sangue que tempera um diamante.

Sei que tudo já expirou. O que vemos é resíduo. Ilusão que ainda brilha.

Estrela morta que circula pelos dias. Faz da transparência sua vertigem. E de seu percurso a sua meta.

Dá forma à pérola que se solta do ramo. À alga de luz que desenha o meu semblante.

Sim: tudo o que existe nos aguarda no futuro de um deus que dança. Para acasalar a morte.

Para cantar em seu solfejo mais um planeta que evapora na íris de quem olha.

Ouve o estalo dos ossos. É o movimento da história em sua rota centrípeta.

De beleza. De morte. De miséria. De um só copo levado aos lábios de uma libélula.

Que depois se desfaz contra a brisa. Não há nada que justifique a vida eterna.

 

XV

 

Os bois estão no pasto. Lentos. Com os olhos esbugalhados. Olham o Aberto.

Uma bandeira. Um tubérculo. Um cenário. Circulam além das teias e dos vasos vegetais.

E engrenam as patas nas sementes que estouram e não aguardam o parto da terra seca.

Sua abóbada. Minha cabeça bóia em uma tigela. Sou esse sorriso que perdeu o rosto.

Navega ao ar livre em busca de mapas. Encarna o azul noturno das células.

A substância dos astros trafega em meu caldo. Vias aéreas. Cumpre sua rotina elementar por eras e eras.

Não tem pausa. Não tem contorno. Não crava sua delicadeza além do horizonte de meu ombro.

Nem se deixa aprisionar pelos anéis de ódio de um homem que abandona as asas.

Rasteja pela terra espumando seus tentáculos de ameba e franze o cenho ao implorar um nome.

Que o batize. Que o devolva à origem de seus pés. À pátria inaugural. Estômago da terra.

 

XVI

 

Por mais que queiram aprisionar o riso entre dentes de neblina. Nunca vão conseguir.

Ele transborda o campo e explode em pâmpanos e sorve toda a terra o seu ventre clorofila. 

Árvores, árvores, árvores, quem há de circular pelos teus veios e beijar tua última face?

A litania da carne começa onde termina o espelho. Onde a paz comemora um mundo que despreza a arte.

Habito tuas entranhas. Mastigo a estrela cítrica. A tarde que germina de meu peito.

Pulmão de vidro que não cabe mais na mão e vaza para além do universo radioativo.

Assim eu sou seus galhos. As lâmpadas que emergem de um sono lacustre.

Coral de ervas. Cuspo as pétalas. Os ossos salientes do recife espelham a lua.

Seu corpo redondo. Sua queda molhada de feto em meio a arbustos.

O homem ingressa no tempo. Banha de esperma o Éden. Pó do grão de pó que é o Universo.

Desnorteio abutres. A carne escassa dos homens. Eis o que mais se aprecia nos jantares ricos.

Mas eu não modelo o ar com minhas veias. Preencho o vácuo com o sol e estico a minha pele.

Este é o espaço. Onde tudo recomeça. Onde tudo é princípio.

O vento sopra desde a eternidade a mesma frase todo dia.

E por mais que as enguias de fogo queiram abocanhar a noite. Suas pepitas.

Meu ventre só sorve e ressuscita. Tudo o que existe é sol de um sol mais claro.

Não a morte. Se tudo o que morre é o riso de um deus. Seu intervalo.

Mas a vida que se estende. Prenhe de futuro. A tentativa. Um monumento de folhas. Armado pela brisa.

Eis o palco. Eis o fruto e o céu. Isso nos basta. Tudo o que existe nasce quando a pele fecha sua pupila.

Breve hálito. Sombra e liberdade. Deus que move tudo. Por acaso.

1 Comments:

Anonymous Maiara said...

O Rodrigo Petronio leva o transmudar de imagens em filosofia ímpar às últimas conseqüências, não é?

28/3/06 13:10  

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